População indígena da nação Carijó que antigamente habitaram os contornos das baías de Paranaguá.
203 _ Querer-se no século presente fazer-se uma investigação realmente verdadeira da população antiga indígena da nação Carijó, que há mais de 3 séculos existiu e habitou nos contornos dos rios e baías de Paranaguá, é querer um impossível mormente porque não houve escritores das histórias brasileiras que escrevessem sobre tal matéria; e por isso uma questão sujeita a cálculo, e pode este verificar-se realmente que então poderia haver nestas baías uma população de 6 a 8 mil habitantes; se atendermos aos lugares onde os índios tinham suas habitações, em todas as ilhas e margens das baías, vendo-se os lugares que hoje aparecem os muitos sambaquis (71) de cascas de ostras e de outros mariscos de que se sustentavam povos inteiros que em
(71) Nas grandes baías de Paranaguá em derredor delas e entradas de muitos rios se acham imensos sambaquis de cascas de ostras e mariscos de que os índios Carijó se sustentavam e da pescaria do mar, alguns deles avultaram em muitas braças de altura, formando sua elevação pequenos outeiros, ora acobertados de terra até com grandes arvoredos que neles se criaram pela longa série de anos que desde a mais remota antigüidade até agora tem decorrido, desde que os indígenas abandonaram suas moradias. Outros muitos sambaquis mais pequenos têm aparecido onde as povoações deles eram ali menores e hoje ainda aparecem esses lugares nas margens do rio Guaraguaçu, dos Correias e Almeidas, do Toral, Ribeirão, Rio das pedras, Jacareí e Saquarema. No rio Sagrado se encontra ali o maior e o mais extraordinário sambaqui de cascas de ostras, ao qual vulgarmente chama Sambaqui-guaçu ou Sambaqui grande, que ocupa, segundo dizem, o espaço de 200 a 250 braças de comprido em quadratura e distante da margem do rio, terra a dentro mais de 50 a100 braças de distância e pertencente ao guarda-mor Antônio de Oliveira Lisboa e ora de Tristão Alves Freire. Parece que nesse lugar era a cidade principal onde residia o grão-cacique chefe da nação Carijó. Além desse se encontram outros menores nos rios de Itapessetanduba na foz do rio do Cubatão e S. João, e em toda a costeira até as pontas dos Pinheiros e Itapema, e nas margens dos rios da Faisqueira e do Quatinga, e em outros mais lugares em derredor das baías das Laranjeiras e na foz dos rios que nelas deságuam e em todas as ilhas e ilhotes destas baías é onde os índios mais gostavam de morar, em razão talvez nelas encontrarem mais abundância de mariscos e pescaria, em rodas delas, e por isso todas têm sambaquis de cascas de ostras, como é nas ilhas das Cobras, da Cotinga, Rasa, dos Papagaios, das Gamelas, Rasa grande, do Pinto, do Benito, as duas do Jererê, do Biguá, do Lamim, do Guararema, Teixeira, Uvamiranga, Itapema, das Palmas, do Albano, Corisco e outras muitas.
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certos meses do ano vinham mariscar na costa e escolhiam entre os mangais algum lugar enxuto onde se arranchavam e dali saíam como enxames de abelhas a extrair do lodo os testáceos marítimos. É indizível a imensidade que colhiam de ostras, berbigões, amêijoas e sururus de várias castas e outros mariscos e mais pescaria, mas a principal era a das ostras ou porque as encontrassem em maior cópia, e as colhessem com facilidade. De tudo isto havia e ainda hoje há muita abundância nos mangais da Capitania de S. Paulo. Com os atuais enquanto durava a pescaria e o resto secavam e assim beneficiados os conduziam para suas aldeias, onde lhe servia de alimento por muito tempo. As conchas lançavam a uma parte do lugar onde estavam congregados e com elas formavam montões tão grandes que parecem outeiros a quem agora os vê soterrados. Daqui nasceu escrevessem alguns autores que era mineral a matéria de que se fazia a cal, em várias partes da América. Enganaram-se mas com desculpa porque a terra conduzida pelas águas e ventos para cima daqueles montões formou sobre ele crostas tão grossas que nalgumas partes chegam a ter capacidade para sustentarem, como sustentam, árvores bastantemente altas que sobre elas nasceram e se conservam sempre viçosas. Tanta é a antigüidade dessas ostreiras ou sambaquis que a umidade pelo decurso dos tempos veio a dissolver as conchas de algumas delas, reduzindo-as a uma massa branda, as quais petrificando-se pouco a pouco com o calor, formou pedras tão sólidas que é necessário quebrá-la com marrões ou alavancas, antes de as conduzem para os fornos onde as resolvem em cal. Destas conchas dos mariscos que comeram os índios se tem feito toda a cal dos edifícios desta Capitania, desde o tempo da fundação até agora, e tarde se acabarão as ostreiras de Santos, S. Vicente, Conceição, Iguape, Cananéia e Paranaguá e nas praias que vão da Laguna às Torres as há. Na maior parte delas ainda se conservam inteiras as conchas e nalgumas se acham machados de seixo muito rijos, pedaços de panelas quebradas, caveiras e ossos de defuntos, pois que se algum índio morria no tempo da a pescaria, servia de cemitério a ostreira na qual depositavam o cadáver e depois cobriam com conchas. (72) Esses sambaquis ainda hoje aparecem nas margens dos rios do
(72) Nas Memórias Históricas para a Capitania de S. Vicente, nº 29 e 30, os índios Maramoni, povos inteiros em certos meses do ano vinham mariscar na costa; escolhiam entre os mangais algum lugar enxuto, onde se arranchavam e dali saíam como enxames de abelhas a extrair do lodo os testáceos marítimos, É indizível a imensidade que colhiam de ostras, berbigões, amêijoas e sururus de várias castas e outros mariscos, mas a pesca principal era de ostras e berbigões ou porque gostassem mais deles ou porque os encontrassem em maior cópia e colhessem com facilidade. De tudo isto havia e ainda hoje há muita abundância nos mangais da Capitania de S. Paulo. Com os tais mariscos se sustentavam, enquanto durava a pescaria; e o resto secavam e assim beneficiado, conduziam para suas aldeias onde lhes servia de alimento por algum tempo. As conchas lançavam a uma parte do lugar onde estavam congregados e com elas formavam montões tão grandes que parecem outeiros a quem os vê soterrados.
Daqui nasceu escreverem alguns autores que é mineral a matéria de que se faz a cal, em
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Guaraguaçu, dos Correias, Almeidas, do Toral, Ribeirão, rio das Pedras, Jacareí, Saquaremuçu e Saquarema. No rio Sagrado se encontra ali o maior e mais extenso sambaqui que o vulgo lhe dá o nome de sambaquiguaçu, ou grande: e dizem ocupar o espaço de 300 a 400 braças de comprimento e quase outro tanto de largura; e está colocado 50 a 100 braças distante da margem do rio chamado do Sambaqui, que é um ramo do rio Sagrado. Este sambaqui, pela sua grandeza, se supõe que ali era a corte ou a cidade principal e residência do grão cacique daquela nação. Além desse se encontram outros menores nos rios dos Ilhéus, de Itapsetanduba, do Cubatão, de S. João e em toda a costeira do Registro até as pontas dos Pinheiros e do Itapema nas margens dos rios da Faisqueira e Quatinga e em toda a costeira da Ponta Grossa à Piaçagüera e em diversos lugares das margens das baías das Laranjeiras, Guaraqueçaba e Pinheiros, e em derredor da baía até a Ilha das Peças. Em todas as ilhas, e ainda em pequenos ilhotes dessas baías, se tem encontrado grande quantidade de ostreiras, ou porque naqueles lugares havia maior abundância delas, ou nelas era mais fácil a pescaria de peixe, tais são as ilhas das Cobras, dos Papagaios, Rasa pequena, Cotinga, Rasa grande, a das Gamelas, das Ostras, do Benito, do Pauvuçá, do Pinto, Biguá, nas duas do Jererê, do Guararema, Teixeira, do Lamim, das Palmas, do Itapema, Corisco, Uvamiranga, do Albano, do Gonçalo, a do Sousa, a do Barbosa, a do Rolim e Mourão, e outras mais, etc. à vista de tantos sambaquis que se descobriram e outros muitos que ainda estarão ocultos, bem se pode julgar por um cálculo aproximado qual seria a totalidade dos Carijó? Suponhamos que pelo menos haveria em cada horda de suas povoações 10 famílias com 100 pessoas e que na redondeza de suas baías houvesse pelo menos 80 aldeias, logo aí temos pelo
várias partes da América. Enganaram-se; mas com desculpa, porque a terra conduzida pelas águas e ventos para cima daqueles montões formou sobre eles crostas tão grossas que nalgumas partes chegam a ter capacidade para se sustentarem, como sustentam, árvores bastantemente altas que sobre elas nasceram e se conservam sempre viçosas. Tanta é a antigüidade das ostreiras (assim lhe chamam na Capitania de S. Paulo e os indígenas as denominavam sambaquê), que a umidade pelo decurso dos tempos veio a dissolver as conchas dalgumas delas, reduzindo-as a uma massa branda, a qual petrificando-se pouco a pouco com o calor, formou pedras tão sólidas que é necessário quebrá-las com marrões ou alavancas, antes de as conduzirem para os fornos onde as resolvem em cal.Estas conchas dos mariscos que comeram os índios desde o tempo da fundação até agora se tem feito toda a cal dos edifícios desta Capitania, e tarde se acabarão as ostreiras de Santos, S. Vicente, Conceição, Iguape, Cananéia e que iguais montinhos se encontram na praia que vai da Vila de Laguna às Torres, na Província de Santa Catarina. Na maior parte delas ainda se conservam inteiras as conchas e nalgumas acham-se machados (os dos índios eram de seixo muito rijo), pedaços de panelas quebradas e ossos de defuntos, pois se algum índio morria no tempo da pescaria servia de cemitério a ostreira.Na Estatística Geral de França, por Mr. J. H. Schmitz, se vê que a Cidade de Paris consome anualmente 7.000.000 de quilogramas de ostras. Em Paranaguá, com a grande abundância que delas há, bem podia ser um ramo de comércio lucrativo; se dele tivesse havido uma especulação mercantil, bem como mexilhões de escabeche.
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menos 8 mil habitantes, o que não é muito, se se considerar que todas as nações indígenas propagam muito pela liberdade que eles têm com o sexo feminino, sem maior decoro à honra e honestidade, refrearem suas brutais paixões, o que não podem ter os povos civilizados, mesmo porque a religião os proíbe. Tendo portanto dado fim a uma questão que parecia ser de muita obscuridade e o sábio leitor, conhecendo estas razões tão fundamentais, não recusará dar sua aprovação ao argumento calculável desta proposição que se analisa.
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