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JOSÉ LAGARTO VOLTOU
28 de Maio de 2008
O Sambaquí - todos sabem - fica além, num recôn­cavo desta magnífica baía de Paranaguá, tão iluminada e tão colorida, que Assis Chateaubriand escreveu, em falando dela

JOSÉ LAGARTO VOLTOU

A GRACIETTE SALMON

O Sambaquí - todos sabem - fica além, num recôn­cavo desta magnífica baía de Paranaguá, tão iluminada e tão colorida, que Assis Chateaubriand escreveu, em falando dela:

" ... tolera a descrição de um artista. Um reporter não sa­beria traçar o quadro da natureza luxuriante que ela é".

Pára incrustado, pinturesco, num delgado aro de praia, como gema bruta, e é um lugarejo acolhedor, recolhido, com muitos pássaros canoros e grande variedade de madeiras de

lei, onde os moradores - gente boa - vivem da lavoura e da pesca, e nos lazeres fazem soar a viola cabocla, versejando o deslumbramento da terra.

Ninguém, entretanto, se lembra da existência do Sam­baquí, plasmado na serenidade da encosta; e se alguma vez uma embarcação a motor demanda suas, águas remansosas,

certo é ir alguém pedinchar votos aos seus homens semi-alfa­betizados, para eleições que sempre resultam em nenhum pro­veito para o lugar, abandonado e sem qualquer assistência.

Fóra disso, o "Sítio do Martinho" permanece em olvido, naquele isolamento gostoso, que é o existir longe da gente ïn­teresseira das cidades. É nesse pedaço de bênção do céu, que

vivem José Lagarto e Rosinha-da-Verônica, em ranchos som­breados, quasi a par, respirando o mesmo ar iodado, vendo as mesmas águas. deslizarem sem pressa, deleitando-se com o cantar dos mesmos pássaros, andejando algures, lado a lado, despreocupados da maldade humana, as almas simples fan­tasiando sonhos ingênuos de felicidade e ventura, sem idea­lizar riquezas. nem castelos doirados, nessa placidez doce da vida, que os uniu numa afeição perdurante ,e imaculada, plantada desde cedo nos seus corações e florescente sempre.

José Lagarto cresceu com aquela alcunha chumbada às costas, registada na curiosa onomástica do casal, sem que ninguém mais se lembrasse de o chamar pelo nome - José Martinho - descendente de Martinho Velho - Antônio Pe­drosa Martinho - violeiro e arroteador sem canseiras, vindo na mocidade de outras plagãs, vagabundeando, numa ban­deirada do sul, e ali fincou raizes, por querendão, parando até a fim de seus dias.

De menino que José Martinho ganhara certa topofobia pelas redondezas do rancho taipado de Pedro Tintureira, des­de quando, passarinhando com o bodoque de brejaúva e pe­lotes de barro no bocó de pelo de veado, topou no sapezal com enorme lagarto tejú-açú, fugindo aos pinchos, espavorido, bradando por socorro.

Dês daí o apelido o acompanhara, pela vida além, pax­ceirando com a sua querença pela menina de Nha Verônica, que então se condoera dêle, animando-o com palavras de mimo.

Entretanto, apesar de ter sido um piazote opado, balofo e açafroado pela opilação que o atacara cedo, era atilado e inteligente, aprendendo a soletrar com a madrinha de batis­mo, Bertolina Curandeira, que também o pusera bom da ruindade, com cozimentos de cascas de quina branca e fô­lha,s amachucadas de Santa Maria, em jejum.

Crescido e vigoroso, afez-se às árduas tarefas do mar, re­soluto, tendo o prêmio da afeição intacta de Rosinha-da-Ve­rônica - Rosinha-Beija-flor - como a chamou um dia, sur­prendendo-a enlevada, a aspirar o perfume de uma flor do mato, sem imaginar êle que estava sendo poeta, na tecedura de mimoso madrigal de amor.

Distante, muito longe mesmo, em terras de que ignora­vam a existência, e a que nem os seus pensamentos alcança­vam, exércitos adestrados retaliavam-se em chacina, numa luta bárbara e cruenta.

Legiões e legiões estendiam-se em linhas avassaladoras, mecanizadas, aviltando a Civilização, na mais negra página de sua história.

A "cruz gamada" aliara-se ao inimigo da Cruz da Cris­tandade, na deshumana jornada sanguinolenta. Avalanches do mal prosseguiam sem peias, pisando e destruindo. As for­

ças de Satanaz pareciam vencer, e à sua passagem braços er­guiam-se aos milhares, em sinal de servilismo e vassalagem. Num madrugar doloroso, porém, bem perto de nós, sur­giram das regiões profundas do érebo, as máquinas submari­nas, que metralharam e afundaram barcos pacíficos da fra­ternidade brasileira.

Como os demais povos agredidos, começamos a padecer no sangue e na carne, os tormentos trágicos da guerra. Em todos os peitos cresceu a onda da revolta. E essa revolta ge­rou nos corações - nos nossos, corações que nunca abrigaram ódio - o desejo ardente de vingança.

Foi quando uma clarinada vibrou clara, sonora, estru­gindo pelas quebradas, atravessando o mar, rasgando as mon­tanhas, vadeando os rios, rompendo as matas, até vir ecoar na tranquilidade do Sambaquí, arrepiando aquelas almas simples de praieiros tisnados pelo sol, que sempre viveram em humildade e em paz.

definidos, ou linhas curvilíneas, perfeitas, como se os guiasse um "instinto militar", igualzinho à formação dos possantes pássaros de aço, de caça ou de bombardeio, de que falara José Lagarto, na sua visita de despedida, - que nas batalhas tan­to podem decidir da sorte dos soldados, salvando-lhes as vi­das, como destruí-los impiedosamente. Nos seus êxtases, nem sentia o mordicar dos maroins silentes, que iam se despren­dendo e caindo, saturados do seu sangue, como se fôssem le­gionários dos exércitos da destruição, que José Lagarto fôra combater. Assim passava os dias, longos e torturosos, no ar­rebatamento de sua alma, absorta, olhando sempre para o céu e para o mar, vendo as velas brancas que iam passando, que iam desaparecendo na distância, destinos incertos como o do seu bem-amado.

E nos seus olhos ficava sempre boiando uma lágrima, de esperança e de incerteza.

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A convocação e o voluntariado levaram homens de tôda parte aos quarteis. As inspeções sucediam-se rigorosas, e os exercícios prosseguiam ásperos e exaustivos. Uma grande fôrça estava em formação, forjando homens de aço, para a luta extrema. Não tardou que do milagre do patriotismo, surgissem os Expedicionários do Brasil - tropa varonil, que levaria para além mares, a certeza da vitalidade da nossa gente.

E ombro a ombro, com essa mocidade disposta ao sacri­fício da vida, marchava José Lagarto, o praieiro anônimo e obscuro do Sambaquí, que de lá viera num amanhecer pintal­

gado, quando as, estrelas olhavam do alto, como que penali­zadas, os olhos úmidos e tristes de Rosinha-Beija-flor, e os seus lábios assustados, que êle acabara de beijar num ímpeto de amor, como nunca o fizera antes.

Rosinha-Beija-flor vivia em grande tristura, enclausu­rada à sombra da velha gameleira do porto, tendo no coração o travo do amarujar da saudade. Seus olhos cansados per­

diam-se na contemplação do céu vazio e, vezes sem conta, acompanhavam os andos de biguás que passavam em vôos simétricos, de regresso ao pouso das ilhas, traçando no espa­ço longas faixas escuras., formando extensos V V de ângulos

Os guaperuvús temporões estavam florescidos, deixando cair a esmo a chuva de ouro de suas pétalas. Ponteavam os caules avermelhados dos caraguatás e as orquídeas nativas aviventavam as cores, na esquisita garridice de suas formas. Sabiás sopravam em diaulos encantados,.

Os gaturamos cantavam nas laranjeiras vestidas de noi­vas, e os tangarás dançavam nos galhos. Em tudo o aroma agreste dos ramos rebrctados, e a alegria verde do mato cir­cundante.

Tudo era alegria e festa. Transparecendo nos. olhos lu­minosos e no coração de Rosinha-Beija-flor, aflorando-lhe nos lábios carnudos, que voltaram a sorrir. Era êsse o cenário

que a sua imaginação criara, para a recepção de José Lagar­to, vindo com o primeiro escalão de tropas brasileiras, de re­gresso da Itália. E uma tarde êle chegou. De longe as suas mãos aflitas acenavam, como asas ansiadas de alcançar a t-erra.

E depois pisou a praia, trêmulo de emoção. ó milagre do céu!

José Lagarto era o mesmo! Não se alterara com as agru­ras da guerra, e tinha na boca o mesmo sorriso de bondade!

Trazia na camisa verde-oliva, como troféu de honra, a condecoração por feitos heróicos, em Monte Castelo. Mas,

sob ela, no peito onde uma cicatriz vermelhava, vivo e arden­te, estavam o amor de sua Rosinha-Beija-flor, e o suave en­cantamento da sua figurinha morena, com que marchava sempre.

E isso ela o sentiu bem no fundo dalma, quando êle a to­mou nos braços vigorosos, e seus lábios uniram-se num beijo quente, como naquele amanhecer incerto, da triste separação,

em que as estrelas ficaram olhando do alto, penalizadas dos seus olhos úmidos.

Adminitrador
Voltar: Terceira época de 1711 a 1808, desde a venda da Capitania de S. Vicente à Coroa até a vinda Del-Rei D. João VI ao Brasil. Adiantar: J U C A   V I O L E I R O
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