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J U C A V I O L E I R O
28 de Maio de 2008
Pedro Tintureira, magro -e aranhiço, estava intrigado com a insígnia que José Lagarto trazia, presa à manga da camisa. E coçando as farripas que se empastavam na fronte ru­gosa de couro curtido de tubarão, pôs-se a chupar o can

J U C A V I O L E I R O

À ANACIR FERREIRA DE ABREU

Pedro Tintureira, magro -e aranhiço, estava intrigado com a insígnia que José Lagarto trazia, presa à manga da camisa.

E coçando as farripas que se empastavam na fronte ru­gosa de couro curtido de tubarão, pôs-se a chupar o canudo de taquara do pito de barro, matutando filosóficamente, que neste mundão de Nosso Senhor Jesus Cristo, tudo pode acon­tecer:

- "Inté a cobra fumá— ."

No Saco do Tambarutaca o dia iniciou-se com augúrio de tempo seguro, a barra do horizonte mcsqueada de âmbar rosa­lilá, como pétalas de guaperuvús e jacatirões desflorescentes.

A aurora, assim perequeté, parecia de volta de um fan­dango de astros, caminhando desde muito distante por aque­la infinita estrada imensamente azul e imensamente estre­lada, para o gracioso afã de despertar os pássaros, aviventar as matas, dourar as serras e os montes e azulecer as águas, embelecendo e colorindo a costa.

No socalco do sítio,, alteado por ligeiro risco de praia aberbigonhada, sob a guaricana entrançada do ranchão, a canoa ficara varada, o rôlo. da vela cintado pela escota, o

mastro de pindaúva, a verga e a espicha de taquara apontan­do pela popa, os remos de massaranduba inertes, o furo do sotabanco lembrando uma órbita esburacada, vazia, espiando inútilmente a gradação de cores operada pela lanterna má­gica do céu. Das bordas, como franjas encardidas, pendiam arenques de espinhel, e no fundo a tarrafa enrodilhava-se co­mo um animal osco, encobrindo a poita de pedra-ferro, re­vestida de cipó-mirim.

Desde o corococó do galo, no terreiro de Pocidônio Me­xilhão, no porto vizinho, que Juca Violeiro e seus dois filhos rondeavam pelo interior da morada, em preparativos.

O café aguado, colhido do seu próprio chão, por eles tor­rado na frigideira de barro e socado no pilão de urucurana, já fumegava, fervendo, para a sorvedura matinal, e as bere­recas de mandipuva cozida, com indaiá pilado, embuçavam­se em folhas de bananeira, comprimidas na cuia de porongo, molengas e umentes. Faltava ali a figura prestativa de Nha Cóca, assuntando par aas necessidades, a fim de remediá-las.

Coitada de Nha Cóca! Findara-se nas caimbras de san­gue, mal-empregados os cuidados dos entendidos, que a ou­

tros levantaram com "rálos de barerêçô", "chás de trepoerá­va e brotos de araçá", banhando a barriga "com cozimento de casca de romã", e demorados banhos de assento, de "Ma­ria Mole", "Sete Sangria" e "Pata de Vaca".

- "Eram os, malfazidos da vida, do corpo já consumido, em caimento, que não suportava a fortidão da ruindade...", lamuriava-se o velho pescador, falando do coice recebido de empuxão, com aquela rude ceifada, que marcou o rancho, abrindo um cavado na sua remota maridagem.

Juca Violeira ainda trazia no corpo, ruça pela usança e pela salitrada do mar, a mesma camisa de merinó preto, do seu nojo por Nha Cóca, fazia mais de ano.

Era, para c mundo, o vestígio visível do seu sentimento. Mas lá dentro, santo Deus!, como torturava o ardume da feri­da da viuvez, a falta da companheira que o amparava, queren­çosa, por caminhos irremeáveis, desde o tempo longe em que os revoltosos de Custódio vararam pela Ponta da Cruz, os barcos de guerra penachando o ar, os canhões vomitando fogo pros lados da Costeira, sacudindo no estrondo, os caibros de sua casa em Piassaguera!

A agonia do seu coração nunca mais parou de espinhar. Era como a maré empanturrada, que paralisa as vazantes, extravasando pelos espraiados, e doída como esporada de ba­gre cangatá!

A afirmação estava ali, pendurada do tanchão, as cordas afrouxadas, as cravelhas emperradas, muda como um pin­tassilgo morto: a viola de cacheta com floreados de canela, nunca mais ponteada no, acompanhamento de suas cantigas acochichadas, que a boca também se lhe selara no queixume de suas penas, naquele anoitecer em que Nha Cóca apagara os olhos, entregando-se ao Senhor, extrapassada de padeci­mento.

Malditosa, sua vida paralisou-se, com a melancolia aco­bilhada dentro do peito. E era agora êss.e grande silêncio, pesando sôbre sua pobre alma amargurada.

Reunidos no paiol da casinhola, matutando em cousas que não desejavam extericrizar, a pescaria foi combinada para o madrugar seguinte, pros lados da ilha das Bananas, abundante em peixes de primeira.

O mar balançava-se num afrouxelado de plumas, que o vento mal encrespava, tornando inútil o panejamento da vela. Juca Violeiro patroava, o remo firmado na popa, tendo a ilha das Peças, a boreste, a Ponta do Pasto a bombordo e a proa rasgando em direitura à largueza das Laranjeiras.

Os remos mergulhavam, fazendo borbulhar a água, pin­gantes, rumorejando no b&jo.

A tristura acompanhou-os, acoitada em suas almas, ento­jando-lhes o navegar e emudecendo-lhes as bocas.

-, "Aquilo mais parecia um cortêjo de enterramento, ru­mando pro seu destino..."

É que Chê-Chéu e Jango de Nha Cóca deviam seguir pro Rio, convocados, para o serviço ativo da Armada, já tendo pas­sado no exame de saúde, na Capitania dos Portos.

A partida fôra marcada para aqueles dias, e novamente a caligem da saudade veio aborri o velho praieiro, já caleja­do de sofrimento.

- "Mas, que fazer?... Era da lei... Chamamento do Govêrno, não pagando a pena desertar..."

E com falsa pachorrice, finalizava numa voz incerta: - "Se tinha que ser, que fôsse.. ."

Assim, aquela pescaria, tratada entre anseics e subenten­didos., marcava a separação, talvez derradeira para o pescador sexagenário, que tinha à vista os sombrios mangais da outra margem da vida.

Agora a "Fortaleza" corria à bolina, transpondo o bai­xio da ilha, das Cobras, varando o canal do Maneta, voltean­do pelo Furado, até o Itiberê. Nessa data os rapazes deviam apresentar-se às autoridades, para a viagem, tão depressa o vapor terminasse seu carregamento, no Porto Dágua.

Juca Violeiro procurava demonstrar encorajamento, ani­moso de espírito, contando de tempos idos, dum fandangão de estrondo, na eleição do Marechal Hermes contra Rui Barbo­sa, quando vencera Chico Guaratubano, vindo por bom na festa do Inspetor de Quarteirão das Prainhas, feita com des­perdício pelos graudos, cabalando pelos sítios.

Depois do almôço no Mercado, porém, enjambrando des­culpas, apressuradamente deu a bênção aos dois filhos, chei­rou-os nos pescoços, num afago paterno, e largou-se rio abai­

xo, fugindo de presenciar-lhes o embarque, que viria aumen­tar o travor da sua recalcada amargura, quando o navio co­meçasse a bulir com as hélices, revolvendo su´alma, espu­marando as águas.

Já as boias cativas sobressaiam no pisca-pisca das lan­ternas, quando o "Itaquera" passou pela ilha das Cobras, co­mo o pedaço mais iluminado da cidade, descendo com a bai­xamar.

O farolete de luz encarnada, da ilha das Cobras, como um ôlho de saracura espreitando de dentro do mato, deixava ver, no reflexo da língua ensanguentada que lambia o mar, a

canoa tripulada por Juca Violeiro, tenteando a maré, olhan­do o barco desde o ancoradouro até vê-lo desaparecer, pros lados da Barra, levando Chê-Chéu e Jango de Nha Cóca, seus apêgos a êste mundaréu de ingratidões sem fim.

E quando a "Fortaleza" abicou na insignificância da praia do Tambarutaca, para voltar ao abrigo do ranchão de guaricana entrançada, Juca Violeira tinha os olhos cheios dágua, como se neles trouxesse um pedaço daquele mar negro e tranquila, onde boiavam pedaços de luar, muito prateado e muito melancólico, que a lua mandara em vão para suavizar o amargor da soledade. ..

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