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O temido Manoel Inácio
28 de Maio de 2008
Não se poderia dizer que Manoel Inácio fôsse um sujeito empelicado. Crescera em parcos cueiros de amarga orfanda­de, acocado pela bondade simples da avó, devotada à filha

O         T E M I D O    MANO E L     I N A C I O

AO DR. LOUREIRO FERNANDES

Não se poderia dizer que Manoel Inácio fôsse um sujeito empelicado. Crescera em parcos cueiros de amarga orfanda­de, acocado pela bondade simples da avó, devotada à filha, sucumbida à míngua, numa malvadeza do alastrim que talara, o sítio, segando vidas, numa recaída ocasicnada pelo nenhum resguardo do rancho mal calafetado.

Mesmo assim, fraco como filhote de socó-boi, ninado em degastado tipití como num aturá indígena, aleitado na vasa­da muxiba da madrinha, e mais tarde alimentado com bana­nas São Tomé, assadas na cinza quente e mastigadas por Nhá Brazilia, que sem entôjo lhe empanturrava a boquinha gulosa com a pasta salivada, foi desenvolvendo-se apesar do defi­nhante garrotilho, ao lado da Eusébia da Maricota, sua irmã colaça, como um animalzinho selvagem, esquivo, abusando da liberdade nativa.

Rapazola, já sabendo manejar a trarafa e arpear com desembaraço, colher a bolina ou domar a "Guararema" no tembé das cavas, golpeuo-o a vida com nova e alanceada má­gua. Foi num ageniade da tarde, quando o sol, despindo a ja­pona felpuda de nuvens., se escondia na enfesta na Serra da Prata, que êle retornou do "Cercado", macambúzio, emocio­nado pelo sepultamento do corpo enrijado da avó Brazilia, que ficaria apodrecendo na areia fôfa, nc socavão abrigado, como tronco cuspido na praia, mirrada na sua velhice, como palma benta esquecida num canto de oratório simples.

Era como se lhe zimbrasse uma segunda orfandade, ago­ra mais crua e pungitiva para sua alma tímida, começante a sonhar com os arvores da vida. E no cismar das heras quie­tas, na mansidão amodorrante que lhe plasmava o espírito, ouviu o urutau agoureiro, lúgubre, ecoando de seu coração consumido de saudade.

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Pensou no pai que não conhecera, safardana e cachacei­ro, cêdo emigrado para a estiva da cidade, abandonando a companheira pejada dele próprio, cruciada de vergonha e que em pouco morria, em surto de libertação e esquecimento.

Recordou a avó, amadurecida e amante, a encher-lhe a mente de pavor, afirmando casos macabros da Caipcra uni­pede, baforando quebrantos pelas frinchas dos ranchos não

esconjurados pela arruda, que o deixavam transido e trépido de mêdo.

Pensou o que perdera de sua malograda benquerença, sentindo-se mergulhado em aniquilante melancolia de aban­dono.

Mas, na noite ensombrada do isolamento, como benéfico palor de luar espargindo suavidade no amargurado das suas memórias, exsurgiu-lhe o vulto de Eusébia, sua irmã de leite, acarinhando-o com as mãos fatigadas pela lida, entanto ma­cias e afáveis, como a viração que afaga a pragana fulva dos ubás, fazendo-a palpitar de leve, arrepiada do contato blan­dicioso e sutil.

Passou a revê-la em sua camisola de serafina; os seus olhinhos apagados de sapiroca, afetados pela dor dolhos; os tamancos esquecidos na areia branca, como barquinhos pa­rados; os cabelos caindo pelos ombros estreitos; as pernas fi­nas, lustrosas, marcadas dos "camarões" do fogo...

Surpreendeu-se de que já fôsse mulher, cheia de viço e encanto. E num escondido do peito, como centêlha dormida no tavêvê do braseiro, sentiu luzir a flama da sua cobiça por ela.

Os guaperuvús flavesceram em flores e retornaram ao verdor das fôlhas espalmadas, sem que Manoel Inácio topasse coragem para falar a Eusébia, do segredo que seu coração abafava, fervente como surriada de mar batido na pedra.

Debalde as afanosas velhas azoinavam, como motucas da praia, destilando ácido, fradeando daquele derriço, que pare­cia não ter mais fim.

Ela não sabia diferençar o seu enlevamento, o torpor que o pasmava a seu lado, estonteado do eflúvio quente da car­ne plapitante e virgem.

Eram sempre os mesmos companheiros, andejando com os dedos mindinhos enroscados em fraternal aconchêgo, con­versando ao acaso, os olhos acompanhando o revoar dos te­

soureiros de asas distendidas, riscando o espaço de negro, ou descobrindo cousas nos frouxéis de nuvens que manchavam

céu.

De volta ao rancho, porém, quando ouvia o sabiá sere­

natear para a fêmea na aroeira frutífera, em reencontro de amor, Manoel Inácio sentia-se embrutecer, lastimava-se de ser assim languente e sarambé, e despertava nele a lascívia de tomá-la nos braços, de amachucá-la em carícias doces, de bei­já-la enternecidamente na boca.

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Manhãzinha, entretanto, banzado dos seus pensamentos, embiocava-se na sua debilidade, esmorecia, ensoado, e ficava esperando que ela o acoroçoasse, para dizer-lhe, então, do seu afligente enrabichamento.

A bandeira do Divino vinha de longe, poeirenta de mui­tas estradas, vermelhando no esmalte azinhavrado do mato iluminado de sol.

Fazia um tempão que a Companhia engendrara aquela marcha largando-se por êsses pagos de Deus, rumo ao acaso, cortando por caminhos e atalhos, transpondo os cerros com que ia esbarrando, varando esteiros e esquisitos, e pousando algures.

Integravam-na o "folião", o "tiple", o "contrato" e o "ra­bequista", na realidade o violeiro, o caixa, o portador da sa­cola de esmolas e o executor da rabeca bastarda.

Quando o pendão do Divino vem a par com a bandeira da Trindade, de cor branca-encardida, a "Companhia" ou "Romaria" é elevada ao dobro; em qualquer das hipóteses, po­rém, o "tiple" é sempre um meninote mais ou menos ladi­no, com voz aguda, estridente, conhecida como voz de "re­quinta".

Acumula a função de "soprano" com a de tocador de caixa, formando o côro com o folião, que é "contralto", e o contrato, o "tenor" do conjunto. Só o rabequista não toma parte na cantilena, com o queixo barbalhantes fincado no rabo do instrumento, lembrando descomunal gusano perfu­rando o fundo de um batelão pcitado.

As pancadas da maçaneta, na pele curtida de cotia, re­percutindo no ôco do barrilote apertado em embira cochada, cadenciadas e surdas, vão ajuntando o acompanhamento da gente simplória, devota do estandarte desbotado, de fitas es­

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torricadas, que traz no tôpo a pomba simbólica, acocurutada num tufo de flores, como rôla de arribação cansada de pro­longado vôo.

Bonachão e bazulaque, Jango Tabatinga que na mocida­de também zangarreara na viola, era o senhor da casa que melhor acolhida podia oferecer em todo o Tambarutaca. Disso vinha inteirado Chico do Desterro, matreiro e labioso cabo­clo imigrado do sul, que sobraçando a famanada viola enca­minhava a procissão, com bússola acertada, "sabendo onde ir parar".

Por fim a Companhia estacou, espraiando-se o acompa­nhamento pela sombra larga da gameleira galhuda.

Os dedos do folião deram de amaciar as cordas, depini­caram o bordão e a prima, começando a pontear. A rabeca guinchou, estrídula, pondo-se a gemer afligida pelo tan, tan, tan, tan-tan isócrono que o tiple ia automáticamente marcan­do. E as três vozes foram-se elevando, sonoras, ritmadas, na entonação dos versos adaptados à chegada:

"Na chegada do Divino, No céu acendeu-se luz, O Divino vem salvar A imagem de Jesus.

Divino Espírito Santo, Com sua bandeira veio, Com seus poderes sagrados, Só pra fazer um passeio.

Divino Espírito Santo, Divino consolaçãr, Consolai a nossa alma, Quando do mundo se fôr.

Chico do Desterro desde muito tempo ganhara a vangló­ria de menestrel das praias, não lhe enfarando a vida andeja e estúrdia que levava, de cigarra caipira, namoradora do mar.

Por uma penca de vezes os seus achatados pés calcorrea­ram pelo litoral, a céu aberto, como "folião" ou "alferes" da bandeira, pedinchando para festas, em chão afastado. E nes­se caminhar vagabundo, de nômade indígena, ninguém lhe levou a lampa no iscar o espinhel da simpatia, de que sempre recolhia o melhor quinhão. Dessa vez não lhe escapou à ar­gúcia a figura encarquilhada de Mia Josefa, mãe de Nhani­~. Tabatinga, açafroada como fôlha de mangue aue vai boiando nágua, arrimada num esteio de assoalhar os peixes, como se fosse costal de parambijú escalado, secando ao sol. Caborteiro, atirou-lhe o alambicado improviso, certo do seu proveito:

"O Divino Espírito Santo Vem cansado de voar, Sabendo que estaveis doente, A saude vem vos dar".

Nha Josefa era a simpleza em pessoa. Alegrou-se com o piedoso voto, não lhe alcançando a lisonja, e escancarou a boca murcha, de noite sem luzeiro.

Sem transição o côro encetou o "agradecimento", tão logo as moedas pararam de cair no fundo do bornal de lona, como coroanhas expelidas de vagens amadurecidas:

"Na costa do mar sagrado O Divino apareceu,

Pra agradecer a oferta, Que seu devoto Lhe deu.

Vós sois o nosso conforto, A nossa consolação,

Os raios de vossa luz Enchem nosso coração.

O senhor deu sua oferta, Pra êsse Pai onipotente; Deus lhe dê grande fortuna, Saúde primeiramente.

Divino Espírito Santo, Nosso Pai de alegria,

O senhor, dona senhora, Êle está abençoando,

E tôda sua família!"

O Divino Espírito Santo Tem poder pra lhe pagar, Tambem tem grande fortuna Pra em suas mãos entregar.

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A oferta de sua família O Divino há-de pagar, Com saúde e com fortuna, Quando por Ële chamar".

Desde a formação daquele pequeno cortêjo, que Chico do Desterro vinha olhando de través para a Eusébia da Maricota, sapeando-a, fascinando-se da sua beleza agreste e dos olhos

pardos como mar chumbado, reverberantes na emoção místi­ca de conduzir a bandeira.

Foi a ela que escolheu para a galanice do seu "Canto de rei", procurando dar à voz o adoçamento do mel mandaçaia:

"Sinhá dona deu oferta, Foi com fé no coração, Pra receber do Divino Uma rica proteção.

Agradeço sua oferta, Oferta que a senhora deu. Há de ser favorecida,

Do Espírito de Deus.

Sinhá dona deu oferta, Pro Divino Espírito Santo; Há-de ter muita saúde,

Se coberta com Seu manto".

Eusébia espiou de soslaio para o violeiro, sentindo o afogueada do sangue borbulhar na pele morena do rosto, com a vermelhidão que o sol põe na face das madrugadas marinhas. .­

Baixou os olhos aturdida de vexamento, porém sentindo no coração o escalracho suave uo batel do Amor, em banzei­ro no alagado das suas primeiras impressões. Mas seu deva­

neio foi abruptamente quebrado pelo acre cantar da Roma ria, em animadversão aos sumíticos, que nada deram, por cainheza ou por falta de haveres, ferindo-os com o acúleo do anátema exemplificante e molesto, que lhe eriçou a alma in­gênua, como queimor de ortiga do mar:

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"Fechastes a vossa porta, Cortastes a vossa sorte; Assim que se feche o céu, Na hora de vossa morte!

Vós fechastes vossa porta, Pro Divino não entrar. Guardai a vossa riqueza, Pra água do monte levar".

E já o côro volteava na "despedida do acompanhamen­to", em convite amigável, maneiroso e irrealizável:

"Esta bandeira sagrada Vos há-de deixar feliz, Vos convida para a festa Dentro da sua Matriz.

O Divino se despede,

Com sua bandeira de flor, Diz adeus, até a festa,

E pro ano, a quem lá fôr".

Jango Tabatinga, de sobejo, conhecia do ofício. Não pou­cas vezes a sua porta se abriu para albergar o Divino, aco­lhendo com lhanura a comitiva ao abrigo do velho telhado. Hospedeiro por índice, dentro em pouco punha Chico do Des­terro à vontade, falando do tempo inseguro, do puxeirão para as roçadas, da saporema que ia lastrando pela mandioqueira.

Lá no terreiro o tiple emporcalhava as mãos com as ca­beludas arroxeadas, engulindo-as com a voracidade da ara­ponga, na espera do contrato e do rabequista, que flecharam apressadamente para o mato, furando pela língua arenosa do caminho, em direitura ao porto.

Sob a coberta de guaricana, no puxado da casa, Sinha­ninha apressurava-se no preparo da caldeirada, os olhos ver­tendo da fumaraça causticante da cupiuba mal ardida, en­

quanto Eusébia, de enxerida, ia escamando as pescadinhas e os paratís, tentada pela alcovitagem da anciã, que lhe curu­

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piara mexericos ao ouvido, convencendo-a de tal forma, que ela juraria ter visto Santo Antônio olhar do pequeno nicho, piscando-lhe brejeiramente um olhinho esperto, muito redon­do, muito cinzento, como semente madura de caapiá...

Finalmente findou o ajantarado. O rabequista arrotou, chupando os dentes, com ruído demasiado para o seu tama­nho caxexa.

Chico do Desterro despendurou a viola, e a Romaria pro­cedeu o "venzimento da mesa", na sua tradicional forma de gratidão:

"Vamos venzer a honrada mesa, Como de Deus foi venzido,

Meu senhor, dona senhora, E toda sua família, Ficamos agradecido.

O Divino Espírito Santo Está fazendo venzimento; Na sua casa senhor,

Com sua bandeira bento, Êle faz o pagamento.

O Divino Espírito Santo, Êle é Pai de alegria, Êle faz o pagamento, P´los quatro da Romaria.

Muito obrigado, senhor, Por seu leal coração.

Que sempre na sua mesa, Deus lhe dê o sagrado pão".

E a seguir, numa virada de toada, prosseguiu no "encer­ramento da bandeira", pausa e descanso para o afanoso dia:

"Divino Espírito Santo Nesta hora vai se encerrar, Êle vai subir pra Glória, Pra madrugada voltar.

 

 

 

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O Divino vai pra Glória, Neste seu andor de flor, Vai fazer o, encerramento No céu com Nosso Senhor.

O Divino vai pra Glória, Na bandeira vai escrito, Vai fazer o encerramento Lá aos pés de Jesus Cristo".

Encaixilhados na moldura rústica do portal, Chico do Desterro e Eusébia da Maricota cochichavam, as suas som­bras projetadas no páteo sem claridade, alongadas e unidas, como aquarela sem vida.

Um morcego que outro, rasgava a escuridão, em vôos sem ruido, em busca de presas descuidosas.

Na distância ouvia-se o rouquejar das ondas revoltadas, como vozes roufenhas, de uma turba em protesto.

Estirados no perí das esteiras, no fundo da sala, os de­mais refaziam-se da pernada, em sono profundo.

Alhures, a asma de Nha Josefa afligia, isocrônica com o ressonar assobiante do rabequista bepuira.

Pra Chico do Desterro e Eusébia da Maricota, o seu en­contro fora uma premoção do Divino: os destinos de duas al­mas, justapostos numa encruzilhada de caminho, preconce­bido pela divindade.

Do que êles murmuraram, nunca se terá notícias; o aper­to das mãos, prolongado e quente, foi o sêlo de um compro­misso formal, resoluto, definitivo, que pereceu na mudez da noite.

Jango Tabatinga, na penumbra da cozinha, observava em silêncio, lavando os pés com a mesma displicência com que Pilatos lavara as mãos, eximindo-se de culpa:

- "Eusébia era sózinha no mundo. Uma ave desarvorada., com futuro incerto. E o pasmado do Manoel Inácio nada re­solvia, boiando como "mãe dágua", deixando o tempo pas­sar" ...

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E, filosofando, Tabatinga pinchou fóra a água da gamela de cacheta, remoendo por entre a cacaria dos dentes:

"Há-de ser favorecida Do Espírito de Deus..."

Ainda faiscavam estrelas no céu, quando a Companhia despertou, aprestando-se para reiniciar o fadário.

Chico do Desterro apertou as cravelhas, retesando as cordas. E as vozes harmônicas cantaram com vivacidade,

alegrando a madrugada, a "alvorada da bandeira",

cerramento folclórico do ritual semi-pagão:

no en­

"Alvorada! Alvorada!

Hora em que Cristo nasceu, Acendeu-se a luz da Glória, O Divino apareceu.

O Divino Espírito Santo Veio dar sua alvorada, Veio abençoar seus devotos Com sua bandeira sagrada.

Oh! nesta tão grande hora, Resplandece o mundo inteiro; O Espírito Santo vem da Glória, Com seu poder verdadeiro.

Divino Espírito Santo Está pondo sua bênção No contrato e rabequista, No tiple e no folião".

Momentos depois do café com mistura, a Companhia marchou para o porto, donde a canoa de canela preta larga­ria para as Laranjeiras.

A Romaria ia agora em número ímpar, e florescida: Eu­sébia da Maricota resolvera acompanhar Chico do Desterro, na sua aventura de folião inveterado.

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Nha Josefa fôra cúmplice naquela decisão final, influin­do com o seu conselho, mas confiava que Eusébia seria feliz. As pupilas baças voltadas para a lonjura do tempo, sonhava com um dia que vinha amanhecendo, doirado de luz, em que ela também, numa afoiteza singular, aventurou-se a partir, rebocada por um caboclão despreocupado, em busca da feli­cidade que seu coração desejava.

E ali ficou no seu sonho, os olhos perdidos no betado que a madrugada ia pintando, até que uma bagada lhe escorre­gou pelo enrugado da pele macerada, amarelenta como folha de mangue que vai boiando nágua...

Manoel Inácio fôra acutilada pela sorte. Julgou-se um precito da vida, e isolou-se em mutismo profundo e martiri­zante, consumindo-se.

- "Era o mal da malincolia", bedelhavam as velhas be­ruanhas da praia, zunindo.

Mas um dia viram a "Guararema" proejar para as La­ranjeiras, rasteando Eusébia, como fantasma de esperanças mortas.

E ninguém ficou sabendo, ao certo, o que aconteceu depois...

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