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Medicina Caseira 28/05/2008Medicina Caseira
28/05/2008
Medicina Caseira É através do Dr. Annibal Ribeiro Filho e de seus escritos que ficamos sabendo um pouco mais sobre a Medicina Folclórica, chamada como medicina popular. Aqui é importante ressaltar que a medicina popular, a medicina do povo, demonstrada através dos benzimentos, rezas e simpatias esteve sempre arraigada à cultura e, até, às tradições de comunidades. A busca pela cura é uma constante no ser humano desde civilizações antigas. É claro que a medicina moderna alcança resultados, até inesperados. Se os homens de 1650, por exemplo, pudessem presenciar o que se passa hoje, como o transplante de órgãos, a cura do câncer, os inúmeros remédios, dispostos nas farmácias bem à vista dos fregueses, diriam que tudo isso “é uma coisa do outro mundo”. Mesmo assim, não podemos e nem devemos fechar os olhos para a medicina popular. Sendo assim, encontramos respaldo médico do Dr. Annibal Ribeiro Filho que, em 1974, discursava sobre o assunto no dia em que o Brasil comemorava o “Dia do Folclore”, em 22 de agosto. Dr. Annibal faz uma referência ao livro da professora Vera Beatriz Ribeiro Langowiski intitulado “Contribuição para o estudo dos usos e costumes do praieiro do litoral de Paranaguá”. Ela oferece importantes informações sobre a medicina caseira. Dr. Annibal resolveu unir as informações da professora à sua experiência como médico em Paranaguá. Cheio de idealismo e vontade de colocar em prática o aprendizado adquirido, durante anos na faculdade, encontrou a medicina popular enraizada na cultura do povo da cidade, pois na década de 30, Paranaguá carecia quase totalmente de recursos científicos. Em seu livro, a professora Vera Beatriz diz que “Desprotegido por falta de recursos médicos, o caboclo encontrava no meio ambiente em que vivia, os elementos com os quais combatia as enfermidades, sobrevivendo a elas mais pela própria resistência orgânica do que pelo benefício dos remédios caseiros, das ‘mezinhas’ e das ‘garrafadas curativas. Essa medicina caseira era entremada de práticas supersticiosas, de rezas, de benzimentos e de simpatias que, se não curavam davam ao doente a fé, o alívio e a esperança, forças imprescindíveis para predisporem o organismo a uma reação benéfica, mobilizando as naturais defesas orgânicas”. Dr. Annibal reafirma que a fé, realmente, é imprescindível, pois a confiança no médico e no medicamento por ele ministrado é um fator importante para um resultado satisfatório. Até hoje a chamada medicina popular está entre nós. Muitas vezes a incômoda dor é tratada com algum chá caseiro e até simpatias, antes de se procurar um médico. Deve ter sido uma experiência, de início, difícil para o médico recém formado que chegava à Sala dos Bancos da Santa Casa de Misericórdia de Paranaguá e encontrava uma legião de caboclos confiantes em suas próprias intuições e crendices. “Era a Medicina científica das cátedras universitárias alicerçada em conceitos indiscutíveis baseados na análise, nas pesquisas e na cultura médica, defrontando-se com a medicina folclórica, empírica e supersticiosa”, declarou o médico. Para quem vinha do Rio de Janeiro, orgulhoso por seus mestres e sentindo-se honrado por ter conhecido, em sua vida de estudante, Madame Curie que era esposa e colaboradora do cientista Pierre Curie, sentiu o choque do abismo entre uma medicina e outra. Ele constatou, inclusive, que teria que aprender até as terminologias usadas pelos seus pacientes que se queixavam de “pontadas no sangradouro”, “dores no apá”, “inchaço no tronco da natureza”, “mau jeito no garrão”, “torcedura no patação do joelho”, “mau hálito por baixo”, “mal de engasgo”, “tontura nas pernas”, “tosse de cachorro”, “campainha caída”, “mal de sete dias”, “pilação no ouvido”, “mal do desmamo”, “recaída de parto”, “dor no servente”, “afrontação da mãe do corpo”, entre outros males que atacavam os caboclos. “Foi nesse instante que tomei contato com a Medicina Folclórica, tão rica de sabedoria popular, de conhecimentos úteis e de conforto espiritual, e aprendi com meus pacientes a terminologia usada por eles, para poder entender seus males e curar suas enfermidades”. No ano em que escreveu sobre o assunto, portanto 1974, Dr. Annibal informava de que 50 anos atrás, na década de 20, a indústria farmacêutica era pobre e não era dotada dos recursos que, com os avanços adquiridos através das pesquisas, foram mostrando novas condições de alívio e cura para doenças. Ele mesmo declara que se utilizava dos conhecimentos da cultura popular, trabalhando paralelamente para a educação do doente e das famílias, para a chamada medicina científica. Durante séculos, os caboclos do litoral aproveitaram-se do que o meio ambiente lhes oferecia para procurar a cura de suas enfermidades. O tratamento de qualquer doença era iniciado com a administração de um purgativo e um suadouro. “Os purgativos mais usados eram cozimentos de folha de sene, de maná, de ruibarbo e de rosa branca, cuja beberagem o paciente ingeria quente. Também era usado o cozimento da semente do gruto chamado pinhão paraguaio ou pinhão de purga, ou então o óleo de rícino batido com ‘mel de pau’ (mel de abelha) misturado ao chá das folhas da laranjeira. Os suadouros eram ministrados de duas maneiras: beberagem de líquidos quentes e bafos (vapor de cozimento de ervas). As beberagens mais comuns consistiam em chás feitos com folhas de laranjeira, folhas ou flor de sabugueiro, misturas quentes feitas com café, cachaça e caldo de limão ou cachaça fervida com açúcar e raiz de gengibre. Os bafos eram aplicados fazendo o doente sentar sobre um banquinho dentro de uma bacia ou gamela grande, com os pés para fora do recipiente. Na gamela despejava-se o cozimento fervendo das ervas e cobria-se o doente e o vasilhame com um cobertor, como uma tenda, deixando-o exposto ao vapor do líquido, até transpirar abundantemente”. Vários tipos de ervas, cachaça, água, mandioca e ovos faziam parte de misturas para combater diarréias, má digestão e vômito. Banhas de galinha, de jacaré e de lagarto eram utilizadas para o tratamento de reumatismo e artrites. Nos casos de doenças do fígado era feito chá das folhas de boldo, das folhas de jurubeba e das folhas de parietária e de pariparoba. O doente tomava em jejum uma colher de azeite doce ou óleo de amêndoas e era aplicada na região afetada uma folha de pariparoba deixada no fogo e untada com banha de galinha. E, assim, os caboclos sobreviviam às enfermidades que nem sempre sabiam como aconteciam, ou quais eram as causas da doença. Eles também tinham as suas “receitas médicas” para problemas do aparelho urinário e das doenças do aparelho respiratório, inflamações na garganta, tumores e abcessos, dermatoses, queimaduras e hemorragias. No caso de doenças do aparelho respiratório, o doente tomava chá da casca da “quina branca”, quando havia febre. Os problemas respiratórios, aliás, eram analisados e medicados de acordo com o tipo de sintoma. Quando havia tosse seca, eram aplicadas no doente cataplasmas quentes no peito e nas costas, feitas com farinha de mandioca e azeite doce. Se o doente tinha dores ou pontadas no peito ou nas costas, as cataplasmas eram feitas com o cozimento da semente da linhaça que misturada com farinha fazia uma papa. Se estava muito debilitado, socavam-se as folhas do agrião que eram espremidas e o suco delas era misturado ao leite quente para beber. Os xaropes para quem tinha tosse com expectoração eram feitos com o cozimento da folha do guaco, cozimento da flor do mamão macho, flor da laranja azeda e das folhas da avenca graúda, aos quais se adicionava o açúcar mascavo ou mel de abelha. Nas famosas cefaléias ou dores de cabeça, usavam aplicações de rodelas de batata inglesa colocadas nas têmporas; compressas na fronte, de água fria com vinagre ou com cachaça; ou colocação de folhas de baga (mamona) sapecadas no fogo e molhadas em vinagre. A pessoa que tivesse enfermidades nos olhos como conjuntivite ou catarata, por exemplo, além de ter uma “medicação” para tratamento, também podia contar com simpatias. Casos de envenenamento, amenorréias, sarampo e caxumba também tinham seus remédios. Em seu registro sobre essa importante e interessante peculiaridade dos caboclos, Dr. Annibal lembrou que o câncer também atingiu o caboclo do litoral, o qual tinha uma forma interessante de tratar. Ele diz que eles tomavam conhecimento da doença quando se apresentava em manifestações externas e feridas que eram denominadas como “postema”, “ferida ruim”, “ferida malina” (maligna). “Nesses casos extremos usavam um curioso tratamento que vamos mencionar por ser fora do comum: Deita-se um sapo vivo dentro de uma panela nova de barro até ficar bem torrado. Depois tritura-se o sapo coando-se o pó em peneira bem fina. Polvilhar as feridas com esse pó várias vezes ao dia. Esse tratamento era considerado como último remédio ou recurso para a enfermidade” A verminose era uma doença responsável pela mortalidade infantil no litoral e era combatida com diversos remédios como chás, cataplasmas entre outros. Mas o vermífugo mais usado era o suco extraído da erva “Santa Maria”. As folhas dessa planta eram socadas e espremidas num pano para se obter o sumo. “Esse líquido verde, de péssimo paladar era misturado ao óleo de rícino, adicionando-se um pouco de mel de abelha e chá de folhas de laranjeira (ou caldo de laranja) e dado ao doente para ingerir em jejum, uma colher por dia, durante os sete dias da lua minguante”. Como se percebe, os remédios de simpatias não faltavam e, é claro, que também não deviam faltar as rezas e a fé na providência divina O impaludismo, uma enfermidade de caráter endêmico, assolou a região durante séculos, como escreve o médico. Para o tratamento, era utilizado o quinino, adquirido nas “boticas” da cidade, mas o caboclo também contava com suas formas de tratamentos populares. Todas as doenças ou práticas terapêuticas tinham seu resguardo próprio. Às vezes o doente não podia “tomar vento” e, além dos remédios caseiros, a pessoa tinha que se proteger das intempéries por períodos determinados pela cultura popular. Para cada tipo de doença havia um resguardo. Naquela época se falava que a mulher, nos períodos de catamênio (período menstrual), tinha que fazer resguardo sem tomar banho nem lavar a cabeça em água fria para evitar que o “sangue subisse para a cabeça”. Aliás, muitas dessas culturas ultrapassaram a evolução da medicina e do próprio ser humano, e estão na mente de muitas pessoas como verdades. Parece difícil acreditar, mas, em comunidades mais humildes, é fácil ouvir uma pessoa falando sobre esse “cuidado”. Dizem ainda que a prática dessa cultura faz com que a mulher não demonstre sua idade, evitando o envelhecimento. “As rezas, benzimentos e os patuás eram outras práticas auxiliares de tratamento, curativo e preventivo, que mereciam do doente a mais absoluta credulidade pela narrativa de milagrosos efeitos em casos idênticos acontecidos. Quando as criancinhas estavam apáticas e fracas em conseqüência de subnutrição e avitaminose, eram benzidas contra o quebranto ou mau olhado que acreditavam ser a causa do mal. E quando a desnutrição atingia elevado grau (que a velha ciência médica classificava como Atrepsia de Parrot) o caboclo dizia que a criança estava com ‘doença de macaco’.” Como prática preventiva, os caboclos colocavam no pescoço da criança um colar feito com dentes de alho enfiados em fio de linha de coser para evitar “ataques de bichas” (convulsões). Também penduravam no pescoço da criança uma semente chamada “sapatina” ou “sapatina de judeu” para evitar doenças da dentição. Sapatina é a semente do guaperuvu, árvore da qual se faziam canoas. Não podemos deixar de falar dos patuás protetores que eram saquinhos de pano costurados com barbante, dentro dos quais havia orações escritas para proteger a pessoa contra doenças. Todas essas práticas supersticiosas se constituíam num enorme e variado arsenal terapêutico. Para evitar determinadas doenças eram utilizados fios de cabelos para colocar dentro dos patuás, juntamente com as orações protetoras. Existem ainda as simpatias. O verbo está sendo utilizado no presente, justamente porque as simpatias são divulgadas até hoje. Talvez tenham se modificado ao longo do tempo, mas elas ainda fazem parte da cultura popular. Somente para registrar, vamos exemplificar uma simpatia para maleita e outra utilizada para o parto. Quando um maleitoso esgotava os recursos terapêuticos usuais, lançava mão de uma simpatia que podia ser repetida quantas vezes fossem necessárias, até ficar livre da enfermidade. “Cortar uns fios de cabelo da nuca do doente e fazer uma mecha. Dar, com qualquer instrumento cortante, um talho no tronco de uma bananeira e colocar nele a mecha de cabelo. O talho devia ser feito do lado do poente”. Entre as simpatias utilizadas por ocasião do parto há uma que “quando o trabalho de parto era demorado, colocava-se na cabeça da parturiente o chapéu do marido enquanto ela fazia força para auxiliar o processo de expulsão da criança, o marido deveria dar várias voltas correndo ao redor do rancho, até que o parto se realizasse”. Se depois de nascida a criança, houvesse retenção de placenta, usavam outra simpatia para “fazer nascer o companheiro”. O caboclo denominava a placenta de companheiro, pois acompanhava a criança. Então, “colocava-se a parturiente de cócoras sobre a cama ou sobre uma esteira de piri, no chão. Diante dela uma pessoa segurava uma vela acesa, a uma certa distância, para que a parturiente apagasse com um sopro forte. Apagada a vela, a parturiente dizia: Valha-me Santa Margarida, que não estou prenha nem parida! Acendia-se a vela novamente e o cerimonial era repetido por três vezes seguida”. Como podemos perceber, eram inúmeras as formas de manifestação popular para ajudar a curar e auxiliar em situações difíceis. Um remédio tido como milagroso tinha um interessante nome: “Garrafada do Natureza do Quati”. Diziam que era afrodisíaco. A poção deve ter sido muito utilizada e disseminada, pois os descendentes nas famílias, da outrora Paranaguá, sempre foram numerosas! Para entender o linguajar dos caboclos, Dr. Annibal Ribeiro Filho chegou a compilar algumas formas de expressão utilizadas pelos doentes para dizer do mal que tinham. Vamos citar algumas destas palavras: ‘Afrontação’- taquicardia; ‘Bichas’- vermes intestinais indiscriminados; ‘Corrução na cabeça’- insolação; ‘Corrução no estômago’- má digestão, flatulência; ‘Cremor de estômago’- azia, acidez; ‘Corda’- lombrigas; ‘Doença de macaco’- desnutrição, avitaminose infantil; ‘Dordolho’- conjuntivite, oftalmia qualquer; ‘Empazinado’- empanturrado, que comeu demais; ‘Fígado’- fissuras ou rachaduras de seios e dos pés; ‘Flato’- desmaio, vertigem, desfalecimento; ‘Garrafada’- beberagem de ervas para males venéreos; ‘Imundície’- sarna de carrapato, pediculose do couro cabeludo; ‘Matéria’- pus, secreção purulenta; ‘Mal de sete dias’- tétano do cordão umbilical; ‘Mau hálito por baixo’- infecção uterina; ‘Natureza fraca’- impotência sexual; ‘Nó de tripa’- apendicite; ‘Pano’- manchas cutâneas no rosto e pescoço; ‘Pananga’- estado de grande fraqueza orgânica; ‘Postema’- fleimão, grandes tumores; ‘Servente’- ânus (que serve o corpo); ‘Torcedura de patacão’- entorse de joelho; ‘Velida’- catarata, leucoma; ‘Vazio’- região abdominal abaixo das costelas. “E dessa forma, nossos indefesos patrícios, mostrando acurado sendo de observação e aguda inteligência, foram acumulando, através de muitas gerações, um valioso cabedal de conhecimentos práticos que enriquecem a cultura popular”, lembrou Dr. Annibal. Podemos, assim, saber a riqueza de informações que os próprios caboclos tinham. Desprotegidos da medicina científica e mais apurada, eles desenvolveram suas próprias formas na busca da cura de enfermidades contando, realmente, com o que o meio ambiente lhes oferecia e com sua inabalável fé, traduzida através dos benzimentos, simpatias e rezas. Conhecendo, agora, as inúmeras formas de expressar suas práticas terapêuticas e medicinais, podemos imaginar a grande dificuldade dos médicos que aqui chegavam ao depararem com esse quadro popular, já enraizado na mente dos habitantes desta terra. Com certeza, a dificuldade encontrada pelo Dr. Annibal Ribeiro Filho deve ter sido a mesma dos demais colegas de profissão.

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